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Presidente da LaLiga reconhece peso de Vini Jr para mudar racismo: “Não fazíamos o suficiente”

Vinicius Junior estará em campo nesta quarta-feira para liderar o Real Madrid em novo embate contra o Benfica por uma vaga nas oitavas de final da Champions LeagueE seguir firme na luta contra o racismotema que marcou o jogo de idaO futebol europeu precisa fazer mais sobre esse problema, reconhece o presidente da La Liga, Javier Tebas.

“Porque com o caso do Vinicius nos demos conta de que não fazíamos o suficiente. Havia uma situação que tínhamos que mudar. Não podemos seguir igual.”

— Javier Tebas, sobre a influência de Vinicius Junior na luta contra o racismo na Espanha.

— Acredito que esse trabalho terá que ser feito em mais competições. Creio que Vinicius tem mais insultos racistas porque se converteu num líder contra o racismo. É um homem muito claro nesse aspecto, não tem dúvidas, é valente em suas manifestações, suas atitudes, seus feitos, na sua luta contra o racismo. É muito por essas circunstâncias — afirmou Javier Tebas, em entrevista ao ge. Ele está nesta semana no Brasil para um processo de intercâmbio institucional com a CBF.

Vinicius Junior denunciou ato de racismo por parte do atacante Prestianni durante o jogo da semana passada entre Benfica e Real Madrid, pelos playoffs da Champions League. O jogador argentino foi suspenso provisoriamente pela Uefa, que investiga o caso
Não se trata do primeiro ato de racismo direcionado a Vini Jr na Liga dos Campeões. Torcedores do Atlético de Madrid o xingaram de “chimpanzé” antes do jogo do time espanhol contra a Inter de Milão, em março de 2024, nos arredores do Estádio Metropolitano.

O atacante brasileiro encara situações do tipo na Europa, principalmente na Espanha, pelo menos desde outubro de 2021, quando foi registrado o primeiro episódio, num clássico do Barcelona contra o Real Madrid no Camp Nou. As autoridades receberam denúncia, mas arquivaram o caso.

São pelo menos 25 casos registrados de racismo contra Vinicius Junior na Europa, em estádios, no entorno ou nas redes sociais, segundo levantamento do geO mais recente na Espanha aconteceu durante o confronto contra o Albacete na atual Copa do Rei.

A liga espanhola conta com um grupo especial que acompanha o atacante brasileiro em jogos fora de casa para detectar gritos racistas, há dois anos.

A La Liga não tem poder de sancionar torcedores, jogadores e clubes por episódios de racismo, de acordo com a legislação da Espanha. Tebas já defendeu a perda de pontos no Campeonato Espanhol para clubes responsabilizadosHoje ele adotaria a medida de fechar arquibancadas e estádios, caso a liga pudesse punir.

— Que possamos fechar arquibancadas. Se tem o insulto racista, e não são identificados pela torcida… O autor é quem insulta, mas o outro o encobre. É o que há, por permitir. Fechar as arquibancadas, em alguns casos o estádio, que seja. Mas fechar as arquibancadas seria muito importante. Tem que extirpar do estádio a figura que insulta. E também, do lado de fora do estádio, quando se identifica grupos de torcedores perfeitamente, de qual torcida organizada são, ter a capacidade de impedi-los de entrar no estádio pelo que fizeram do lado de fora.

Cabe à La Liga encaminhar informações, cartas e denúncias ao Comitê de Competições da federação espanhola de futebol (RFEF) e ao Ministério do Esporte, além do Ministério Público e a Justiça comum. Essas instituições têm a responsabilidade de eventualmente punir atos racistas.

As ações de Vinicius Junior transformaram a sociedade espanhola — pessoas passaram a ser presas e condenadas por delitos de ódio e racismo no futebol. A primeira sentença aconteceu em 2024, ligada ao episódio no estádio Mestalla. Até agora houve cinco condenações.

Na semana passada, o Supremo Tribunal da Espanha estabeleceu critério fixo para insultos racistas a imigrantes como delito de ódio, num caso que dialoga com as ameaças a Vini Jr.

Javier Tebas, presidente da La Liga, em entrevista ao ge — Foto: Ivan Raupp

Javier Tebas já discutiu com Vinicius Junior nas redes sociais sobre o tema. O presidente da La Liga afirmou no passado que o atacante precisava “se informar” sobre o trabalho feito pela liga contra o racismo. O dirigente declarou também que “nem a Espanha nem La Liga são racistas”, e que não iria permitir que “a imagem da competição fosse manchada”.

Tebas pediu desculpas depois a Vini Jr e admitiu que não se tratavam de casos isolados no futebol da Espanha. Ele afirmou no ano passado que o país era o que tinha menos condutas racistas e intolerantes da Europa, e que La Liga conseguiu acabar com os “coros” nos estádios.

A liga espanhola criou em agosto de 2023 a plataforma “LALIGA VS Racism” para centralizar ações, conscientizar o público e facilitar denúncias. Também estabeleceu uma parceria com o Ministério de Inclusão, Segurança Social e Imigração da Espanha e compartilhou sua ferramenta de monitoramento de discurso de ódio em redes sociais.

A liga espanhola e a federação espanhola de futebol incorporaram em setembro de 2024 o protocolo de atuação de incidentes públicos de racismo, que havia sido aprovado em maio do mesmo ano pela Fifa.

Levantamento do Observatório Espanhol de Racismo e Xenofobia sobre a temporada passada (2024/25) revelou que houve mais de 33.400 casos no país de discursos de ódio nas redes sociais. Lamine Yamal, do Barcelona, foi o principal alvo (60%). Vinicius recebeu 29% das mensagens.

— Considero que tivemos avanços importantes sobre esse tema na Espanha, mas não definitivos. Os episódios racistas no futebol profissional desaceleraram, isso está comprovado. Mas não se pode baixar a guarda, e deve-se seguir educando, principalmente com sanções mais duras — comentou o jornalista Salvador Moya, pesquisador espanhol do tema de racismo e violência no esporte.

Por Rodrigo Lois — GE Rio de Janeiro

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